Está em curso uma redefinição geoestratégica que tende a mudar o próprio conceito de Europa, resultante dos processos de alargamento da União Europeia e da OTAN. Na ordem do dia, agora, temos a Aliança Atlântica, que a partir de hoje realiza, em Bucareste, a maior cimeira de sempre, cuja agenda representa uma cada vez mais acentuada ruptura com os pressupostos de bipolarização saídos da II Guerra Mundial a Rússia, que não vê nos inimigos de ontem os amigos de hoje, é, cada vez mais, uma fera acossada, que sente nos calcanhares a pressão da potência antagónica.
Sem que estejam, ainda, postos em causa os acordos de definição de um quadro estratégico, que deverão ser firmados dentro de dias por Vladimir Putin e George W. Bush, Moscovo tenciona resistir ao isolamento geográfico ditado por este processo. A Rússia será um entre 23 países exteriores à Aliança que participarão na cimeira, mantendo firme a ideia de que tanto a Ucrânia como a Geórgia não poderão virar militarmente a Ocidente. Não obstante, os norte-americanos estão cada vez mais empenhados no contrário.
Em Kiev, o presidente ucraniano, Viktor Iuschenko, aproveitou a presença de George W. Bush para reiterar o interesse em integrar a OTAN e repudiar a oposição expressa por Moscovo. E o presidente americano garantiu total apoio a essa “decisão ousada”. Este avanço das instâncias ocidentais para Oriente, além de as ir transformando em algo completamente novo (que sentido fará, agora, o pacto firmado em 1949, no advento da Guerra Fria? e que sentido há em considerar atlântico um conceito que cada vez absorve mais realidades?), vai varrendo do mapa os estados-tampões de outros tempos se Ucrânia e Geórgia entrarem no clube, a Rússia passará a viver paredes-meias com um inimigo latente em boas parcelas da fronteira Oeste, excluindo-se as neutrais Finlândia e Suécia, bem como a fiel Bielorrússia.
“Pôr a Ucrânia e a Geórgia nos trilhos da integração faz parte da herança que George W. Bush quer deixar à OTAN”, clarifica um dignitário citado pelo vespertino francês “Le Monde”. Mas estes dois países são, apenas, parte de um processo bem mais amplo ambos ambicionam garantir, esta semana, a entrada no plano de acção com vista à adesão (vulgarmente designado pela sigla MAP), estatuto que outros três países (Croácia, Macedónia e Albânia) deverão abandonar, para se tornarem membros de pleno direito, a par dos 26 estados que hoje formam a Aliança.
Alemanha e França (que quer tornar-se mais influente, ver caixa) são os pesos pesados que levantam dúvidas relativamente a este alargamento apadrinhado por Washington, mas há uma dezena de países que estão contra. Em causa poderão estar várias parcerias com a Rússia de que a Europa está dependente, particularmente em termos energéticos se Moscovo decidir suspender o fornecimento de gás, vários membros da União Europeia enfrentarão problemas muito sérios. Além do mais, os contestatários entendem que vários dossiês diplomáticos ficarão em risco. Num momento em que a Rússia já fez algumas cedências, designadamente no que respeita ao Kosovo e ao sistema de defesa antimísseis, Moscovo não aceitará esta afronta e promoverá, por exemplo, a secessão das províncias da Abcásia e da Ossétia do Sul, hoje integradas no território georgiano.
A par do alargamento e da defesa antimísseis - instalação de dez interceptores na Polónia (que não garantirão a defesa da Turquia, da Grécia, de Chipre e da Roménia) e de um radar na República Checa -, o Afeganistão será outro dos grandes temas da cimeira na Roménia, prevendo-se um reforço das operações contra o terrorismo internacional.
Fonte: Jornal de Notícias
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