Pelo segundo dia consecutivo, a população zimbabueana mostra-se pouco inclinada a aderir a uma greve geral convocada pelo MDC no quadro do combate pela publicação dos resultados das presidenciais, guardados desde 29 de Março nas gavetas da Comissão Eleitoral. Na capital Harare, comércio, escritórios e bancos permanecem de portas abertas. E até o dispositivo policial implementado na véspera começa a ser aliviado.

Perante o escasso impacto da paralisação – que poderá também ser justificado com o facto de apenas 20 por cento da população activa possuir um emprego –, o MDC prepara-se para rever a sua estratégia. Isso mesmo foi adiantado pelo porta-voz do partido de Morgan Tsvangirai, Nelson Chamisa, que no entanto se escusa a admitir a ideia de um fracasso.

De acordo com Chamisa, mais de 50 membros e partidários do MDC foram detidos pelas autoridades nas últimas 48 horas, sobretudo em incidentes ocorridos nos arredores de Harare e Bulawayo. Entre os detidos está o deputado Marvelous Khumalo, recém-eleito pelo círculo de Chitungwiza.

“Não sabemos por que razão foram detidos. Não é crime fazer greve. Crime é o que a Comissão Eleitoral está a fazer, ao não publicar os resultados”, afirmou o porta-voz do MDC, em declarações à agência France Presse.

O MDC alega, ainda, que pelo menos dois dos seus militantes foram mortos por partidários do Presidente Robert Mugabe. A polícia confirma uma morte, mas descarta quaisquer motivações políticas.

A polícia confirma as detenções de 56 pessoas acusadas de perturbação da ordem pública e outros actos de violência.

Tensão em crescendo

O MDC continua a clamar vitória à primeira volta das eleições presidenciais. Contudo, depois de ter excluído enfrentar Robert Mugabe numa segunda volta, o líder da Oposição, Morgan Tsvangirai, veio na terça-feira admitir nova ronda do duelo pela Presidência, mas apenas se o escrutínio for acompanhado por observadores internacionais.

A Comissão Eleitoral do país argumenta agora que não poderá divulgar os resultados oficiais e definitivos das presidenciais enquanto não proceder a uma recontagem parcial dos votos das eleições gerais – presidenciais, legislativas (câmara baixa e Senado) e locais.

A União Nacional Africana do Zimbabué – Frente Patriótica (Zanu-PF), partido no poder, exigiu a recontagem de votos em todos os círculos onde foi batida pela Oposição.

Entretanto, uma associação independente de médicos do Zimbabué apresentou o seu próprio balanço do que caracterizou como actos de “violência organizada ou tortura”. Pelo menos 157 pessoas, afirma a denominada Associação Zimbabueana dos Médicos pelos Direitos Humanos, foram assistidas entre 29 de Março e 14 de Abril.

Situação no Zimbabué discutida em Nova Iorque

A situação de impasse no Zimbabué foi abordada esta quarta-feira numa reunião de alto nível no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o secretário-geral da Organização, Ban Ki-moon, a apelar a uma “acção decisiva” para solucionar a crise naquele país.

Na agenda oficial do encontro, pedido pelo Presidente sul-africano Thabo Mbeki, inscrevia-se o objectivo da coordenação de esforços entre ONU e União Africana para fazer face a conflitos regionais, designadamente na Somália e na região sudanesa de Darfur. Mas foi o dossier do Zimbabué que marcou os trabalhos entre líderes ocidentais e africanos.

Numa das intervenções mais críticas, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, afirmou que “ninguém acredita” que Robert Mugabe tenha conseguido revalidar o seu mandato nas urnas.

“Ninguém acredita, face aos resultados nas assembleias de voto, que o Presidente Mugabe tenha vencido as eleições”, sustentou Brown. “Uma eleição roubada não será uma eleição democrática”, acrescentou.

Por sua vez, o secretário-geral das Nações Unidas afirmou que o desfecho da crise política no Zimbabué poderá afectar “a credibilidade do processo democrático em África”.

“As autoridades zimbabueanas e os países da região afirmam que a crise deve ser resolvida a nível regional, mas a comunidade internacional continua a observar e a aguardar uma acção decisiva”, frisou Ban Ki-moon.

Fonte: RTP

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